sábado, agosto 15, 2009

esparramando-se sobre a mesa esquizofrênica*

Como saber quem é o leitor?
É preciso ser generoso e compreensível com ele, quase (ou totalmente) um escritor cristão...
Há uma linha contínua na escrita: a sacra forma-livro.
Mas queremos o livro lido pelo meio, pelas entranhas, por através, por trás, por partes, rasgado, rasurado, traído, sabotado, pervertido...
Onde mora a estética de um texto? No livro ou no meio?
Bom mesmo é ponto de interrogação: ponto bonito, sinuoso, questionador, impertinente.
E melhor ainda é quem pergunta. Mesmo que o gosto da resposta nos inunde das pílulas douradas de nosso parco saber: ideal de um ego inexistente.
Usaremos seus conceitos, mas não lhes daremos os louros. Roubo, usurpação e arte!
Ironia e não polêmica!
O fanzine contra a ciência!

*texto-produto da defesa de proposta do Jamer (DIF-PPGEDU)

quarta-feira, julho 22, 2009

mágica engarrafada

Incrível como uma substância líquida tem poderes de transporte, desde que ela carregue, engarrafados, os poderes da mágica... um vinho chileno tem o gosto da terra do Chile e você sabe disso quando toma um, mesmo que nunca tenha estado no Chile. São signos que o vinho transporta, signos da terra onde a uva nasceu.

E neste momento, os signos são muito graves, porque o vinho que tomo agora nasceu na mesma terra que eu. Um Merlot Da Paz é capaz de me levar às faltas que o tempo fez, ao que, como eu e o vinho, nasceu naquela terra, mas já não me transmite signos. Ou eu é que já não os escuto mais. Eu quase nunca gostei dos conterrâneos, sempre preferi o gosto das terras chilenas, mas o Da Paz me arrebata, me ganha, quase me arrasta de volta ao convívio das gentes que já não estão lá. Quase... Deveria eu me irmanar aos chilenos ou ir ainda mais longe, aos sul-africanos, negros vinhos, mas há um gosto de terra natal em meus pés...

segunda-feira, maio 04, 2009

entre homens e mitos

fauno.gif (414×489)

Eu disse:

“como eles podem não sentir que eu não sinto nada ?!”

E disse depois,

entre o pedido, a promessa e a praga:

“Preciso de um homem que me emocione”.

E depois de uns 10 anos depois da noite mais intensa,

eis que ressurge

o mais intenso dos abraços...

Ele disse que eu não lembrava.

Eu disse

“é claro que eu lembro”

...e de novo:

um abraço capaz de reentorpecer meu corpo...

Fauno me tomando em seu labirinto

e eu dizendo todos os sins que seu corpo convocava ao meu.

Mas depois,

quando eu saía para o mar

ele disse

“ficarei em terra firme”

e me largou sozinha

no mar das intensidades amedrontadoras e incompreensíveis...

Eu disse que eu lhe tinha medo Ulisses...

Sereias têm medo porque jamais serão Penélopes.

Eu não sei bordar colchas de espera,Ulisses,

eu só sei cantar...

eu só sei de agora

Para Felice Bauer*


A cópia dele, 

copia ela

Pra sustentar sua costela.

Leitora era ela.

Empregada 

ela prega

o prego no prelo da vida

de quem não fala.

À vida de falo

Para outro falo

Não fala.

Ele escreve a verdade

A cópia da mentira 

faz ela

E não fala

Cala

a costela 

na cara dela.


*Leitora e copista ideal de Kafka

terça-feira, fevereiro 10, 2009

o desejo é sempre de aventura

Um dia Jasão resolve dizer pra Joana* por que a deixou: "tu me exigias inteiro e intenso pra tudo, caralho! A outra não, ela fica lá do meu lado quieta e a vida passa sem fazer força".
Quem quer estar ao lado de alguém que não quer forçar a vida? Quando os casamentos ganharam esse significado medonho de descanso, de parada, de cessação da juventude?
Casamento há de ser a mais cruel das aventuras: o outro como aventura. Mas é insuportável querer o outro como aventura enquanto ele nos quer para descansar: "não, não quero ler o que tu escreveste; não, não quero saber por onde já andaste; não, não quero saber o que pensas; não, não quero ouvir as tuas propostas, não, não, não".
Então fica aí no teu apartamento com teus nãos que eu vou passear na floresta e dizer todos os sins que me forem possíveis.
(Marguerite Duras* já havia me avisado: "homens não suportam mulheres que escrevem", mas eu insisto, eu forço, eu publico para que a floresta invada teu apartamento, force tua vida com aventura e tormento, mesmo que permaneça teu medo de admitir que vens aventurar-te em meus escritos para não aventurar-te em meu corpo, afinal, hás de precisar descansar...)
*Jasão e Joana são os protagonistas da peça Gota D'Água de Chico Buarque e Paulo Pontes
*Marguerite Duras. Escrever. RJ: Rocco, 1994.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Entre cinderelas e monstros


Como não desejar o que já foi desejado antes, um desejo afirmado, convencido, domesticado para uma só satisfação? Como fazer do sofrimento a potência da revolta e não o xilique da mulherzinha? Como libertar um fluxo que não encontra companheiros potencializantes? Só liberando... Um que não vinga, outro que goza, um que brinca, outro que broxa, um que escreve, outro que chora, outro e outro ainda... O que não posso é deixar que os fluxos que por mim passam se domestiquem, assim, facilmente, docilmente, como se as minhas únicas possibilidades fossem ser dócil ou brava... Nem dócil nem brava! Não quero ter nome! Não me nomeiem! Vocês, que pouco se ocupam do que por vocês passa... Apenas deixam passar sem nada modificar, sem nada criar com o que a vida lhes dá, de graça. Preferem sua existência doméstica comprada a prestação de desejo, com seus cães tratados como bebês, como se pudessem ensiná-los a falar! Vocês me dão nojo! Não posso habitar um mundo de um povo que pensa ser proprietário do que pensa... Não, queridinhos, pensamento não se tem, pensamento é o que passa por nós para violentar a existência e não para docilizá-la! Não sou eu que sou brava! É a existência que se enraivece:
Daiana tirava um tatu do nariz durante o jantar de família...
- Minha filha, uma princesa não bota o dedo no nariz!
- Mas eu não quero ser princesa, mãe! Quero ser monstro!

Para Lesmari Bitencourt


Meu olho esquerdo tem um ponto de vista, o outro tem outro. O dedo anelar da minha mão direita tem um ponto de vista, mas briga com o ponto de vista da sua falange do meio. Aquele poro mais aberto que tenho na ponta do nariz julga ter um ponto de vista privilegiado; o ponto de vista do dedo mindinho do pé tem inveja. O sol não gosta muito de seu ponto de vista, preferia ter ficado na borda, acha legal o ponto de vista de Plutão, mas acabou no centro. Uma estrela riu dele esses dias: quem disse que você está centro? Hahaha! Você está parecendo aquele exemplar daquela espécie que vive lá num planetinha que vive em volta de você. Esta espécie desenvolveu um ponto de vista que a faz pensar que só ela tem ponto de vista. O exemplar, que eles chamam de Bush, também achou que seu ponto vista era o centro... Ai, ai, ai... O que faz de um ponto vista melhor ou pior? Não há melhores e piores! Cada ponto de vista é só um ponto de vista! Só há perspectivas. E este é o melhor dos escambos: trocar pontos de vista! E eu ando querendo um ponto de vista de lesma...
Alguém tem pra trocar?
*Imagem: Mundo Ovo de Eli Heil

quarta-feira, setembro 10, 2008

ALTEREGO

Seu nome de batismo é Martina Gómez. Nascida em Buenos Aires, mudou-se com o pai para o Rio de Janeiro aos três anos. Nunca soube por que, o pai nunca lhe disse. Aliás, o pai nunca dizia nada, mas ela gostava de pensar que era filha de um fugitivo político e que sua mãe era uma desaparecida da ditadura argentina cuja madre llorava en La Plaza de Mayo.
Acabou criada em plena Tijuca. Sabe tudo de samba, tanto quanto de tango e rock'n'roll, mas nunca se encantou pela batucada. Tinha sempre aquela arrogância portenha estampada na cara. O pai era tão calado que não lhe dera pudores, mas livros!
Aos 14 anos, depois de um convite para ser garçonete do botequim da esquina, foi pro calçadão de Copacabana de tubinho preto, scarpin e cigarrilha. Parecia saber o que lhe aguardava.
Sentou-se num bar à espera da primeira proposta enquanto um figurão afeminado de blazer marine a encarava do outro lado. Incomodada e sempre direta, resolveu se aproximar:
– Boa noite! – ela disse.
– Queira sentar-se senhorita – Posso oferecer-lhe uma bebida?
– Vodka... dupla, com gelo... sem limão!
Conversaram horas até ele convidá-la para ir a seu apartamento. Ela perguntou quanto ele pagaria, pois ela sabia que custava caro e sua cotação subira ao longo da noite. Ele respondeu:
– Darei exatamente o que quer.
– Sendo assim, podemos ir, senhor.
Valentim, o figurão afeminado do blazer marine, farejou em Martina um talento nato. Hoje, aos 30 anos, ela é a gerente de algumas de suas casas noturnas e sua única herdeira.
Versão morena e refinada da Kátia Flávia, é conhecida no submundo carioca como Glória. Talvez por afirmar uma origem longínqua ou mesmo só para contrariar a paisagem, jamais a encontraremos usando um esvoaçante vestidinho florido, quiçá um biquini a tostar nas areias do Leblon. Aos 40 graus, Glória estará de botas e calça de couro preta e sua pele continuará branca atrás de grandes e permanentes óculos escuros e da película de seu Citroen VTR, onde ouve John Coltrane e Sex Pistols.
Se a encontrarmos na Zona Sul, atenderá por Valèrie. É assim que a chamam seu namorado playboy de 22 anos, morador da Barra, e seus amigos, que se interessam muito por alguns produtos que ela consegue com facilidade. Ele pensa que ela é representante comercial em Porto Alegre, por isso só aparece de quinze em quinze dias... pra saltar de asa delta!
Nos outros, ela costuma freqüentar camas de motel acompanhada de Jardson, traficante do segundo escalão do Morro do Alemão que sonha em subir pro primeiro. Glória acha uma péssima idéia:
– Lugarzinho de difícil acesso, meu nego, vai acabar sem conseguir sair de lá e eu, sem conseguir chegar...
Avessa ao clima bossa nova da Zona Sul, preferiu comprar um apartamento no Catete, daqueles antigos e enormes. Mas, além de Valentim, ninguém sabe onde ela mora. Glória não se ocupa de sentimentos, a vida parece escorrer por entre seus dedos como se nada pudesse lhe fazer falta. Foi isso que Valentim reparou naquele bar de Copacabana, quando ela tinha inacreditáveis 14 anos: jamais falou sobre filhos ou sonhos, não gosta de comer, nunca se apaixonou, quer dizer... apaixonou-se esses dias... por um Lambourghini Spyder vermelho! Mas, resistiu. Sabem como é o Rio de Janeiro: convém não chamar atenção nem de bandido, nem de polícia...
Quer voltar a Praga, sua cidade favorita... tem a impressão que, da próxima viagem, poderá não voltar.

segunda-feira, agosto 11, 2008

ÁGUA NA BOCA

A tua boca me dá uma atormentante água na boca.
A pergunta é sobre a imaginação ...
Quanto mais meu corpo deseja tua boca, mais a imagina,
o que faz com que o teu beijo fique cada vez mais longe da minha boca,
e meu pensamento fique cada vez mais perto daquilo que é cada vez menos tu.
- Entendeu?!
Só que...
A água na minha boca não é imaginação!

Nossas bocas jamais se encontraram pra falar.
E eu digo: “não, eu não posso” ...

Imaginar a tua boca tem sido minha distração inútil mais divertida,
- mas não dá!
- Isso é desperdício de água na boca!

... Quando vou parar de ver novela?
Essa televisão não tem botão!

quinta-feira, agosto 07, 2008

"eu não falo a sua língua, eu não sou o seu vizinho, eu moro muito longe, sozinho."

Eu não canto em inglês,
que eu não sou japonês.
Nem perco a poesia
que pode me dar o português.

Aos prisioneiros do rock, eu digo:
- Sou livre em mandarim!
E os prisioneiros da MPB
que não ouçam a mim!
Quem canta não sou eu!
Muito menos este canto é meu!

Aos corpos que se ofertam às línguas que virão,
ouvidos que não sabem quem são...

terça-feira, maio 27, 2008

Sympathy for...

Essa noite quase não dormi. Pesadelos... Um tesão que se confundia com medo: um homem me estrangulava, embaixo d’água, na hora do gozo. Pensamentos atormentados por prazeres de ontem que querem habitar o agora, mas não são nem promessa para amanhã. Quinta, talvez? Hahaha!!! Quem há de saber?

“Não amamos ninguém separadamente das paisagens, das horas, das circunstâncias, de toda natureza por ele englobadas”, disse, mais uma vez, Deleuze. E as paisagens que me fazem amar não são jardins floridos em tardes ensolaradas, quiçá jantares à luz de velas, nem se quer são habitadas por uma só face. Elas têm que ter seu quê de angústia, de fumaça, de múltiplas máscaras e muito rock ’n’ roll...

Já não quererei mais a “sorte de um amor tranqüilo”? Não! Quero a sorte, mas não sei de quê! Não sonho ideais. Tenho pesadelos... A vida é trágica!

Amor fati, enfim: eu amo o que habito com mais fervor!

segunda-feira, maio 26, 2008

Vida Fascista


Começo com o filme de Sérgio Bianchi (2005) e a provocação que nos faz já no título: “Quanto vale ou é por quilo?” Pergunto, então: o que está sendo avaliado ou pesado aí? Responde-se um tanto arriscadamente: pesa-se e avalia-se a vida.

O filme apresenta nossa roda viva[1] contemporânea onde os personagens circulam entre diversos papéis: o herói se torna ladrão; o ladrão, mártir; o mártir, corrupto; o corrupto, vítima; a vítima, inabalável; o inabalável, cúmplice; o cúmplice, algoz... A vida enclausurada, a vida sitiada, a vida que parece não conseguir mais escapar, que não consegue parar de se reproduzir, a vida subjugada a um regime fascista sem um déspota para responsabilizar,

“o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.” (Foucault, 1977)

A título de ilustração, peço licença para contar um causo:

“Andávamos eu e meu amigo carioca em sua primeira estada em Porto Alegre. Levei-o ao mirante do Morro Santa Teresa para que visse o Beira Rio de cima, além de outras paisagens. Lá encontramos Daniel, um menino maltrapilho de uns 5 anos, tão parte de nossa paisagem urbana que já não o ouvíamos...

– Tio, me dá uma moeda?

Meu amigo e sua típica comunicabilidade carioca disse ao menino:

– Quaé, rapá?! Não dá nem ‘oi’ nem ‘boa tarde’ e já chega pedindo moeda?

– Tem moeda, tio? Me dá uma moeda, tia?

Explico ao menino que meu amigo é turista e tal e lhe daria uma moeda se ele me dissesse qual era o nome da cidade na outra margem do rio para onde eu apontava.

– “Cidadi” – o menino respondia várias vezes às minhas insistências e inúteis facilitações e dicas.

– Acho que esse menino não entende o conceito de cidade – pensei. Resolvi mudar o pedido:

– Então me diz o que tu mais gosta de fazer.

– Não sei dizer, não sei falar.

– Tu não sabe falar?

– Não, minha mãe bate na minha boca, só sei pedir moeda.”

Senhores, que povo[2] fala na boca desse menino? Quantas moedas vale um povo que (não) se faz falar?

Estamos falando de uma vida e de uma história que (quase) não conseguem mais escapar. É a vida do homem em constante invenção de si e do mundo (vida como obra de arte) que quer escapar de uma “história que nos separa de nós mesmos, e que deveríamos transpor e atravessar para pensarmos a nós mesmos” (Deleuze, 1992. p.119).

Parece que o filme e a marca que ele deixou queriam perguntar: de que ferramentas precisamos para ouvir e ver agenciamentos coletivos de enunciação e não apenas a queixa-conduta dos indivíduos, a oferta de pão-e-leite ou o ‘me-dá-uma-moeda’? Que lugar ocupamos nesta roda viva que não pára de se reproduzir?

O filme mostra a máquina de Estado (principalmente em suas engrenagens burocráticas e corruptas) se infiltrando nas instituições que deveriam regulá-la: as ONGs (organizações não-governamentais) e suas fachadas assistencialistas de uma população à beira da miséria. Mas acaba dando visibilidade a todo um funcionamento social que acaba tragicamente se utilizando dessas mesmas engrenagens para sobreviver. Eis a roda viva.

E então pergunto: como pensar o que escapa e quer escapar da roda viva e criar novos territórios existenciais para um povo que não se divide entre pobres ou ricos, pretos ou brancos, honestos ou corruptos? Estas binariedades é que dão lugares aos que podem falar e calam os que não podem, nos fazendo esquecer que sempre que falamos, falamos em nome de um povo, de um coletivo. Sérgio Bianchi nos possibilita ver que na roda viva somos todos pobres e ricos e pretos e brancos e honestos e corruptos... a roda viva está aí a capturar todos.

Então, tanto em arte como em política, “trata-se de liberar a vida lá onde ela é prisioneira ou de tentar fazê-lo num combate incerto” (Deleuze/Guattari, 2005. p.222). E a vida só quer devir e produzir mais vida enquanto devir, mas eis que chega roda vida e carrega o desejo pra si. Na roda viva, a vida só quer moeda.



[1] Alusão à popular canção Roda Viva de Chico Buarque que fazia uma referência à aparelhagem do estado militarizado e suas estratégias para calar a vida que queria falar.

[2] Para Deleuze (2006, p.346-347) os enunciados não remetem ao EU como sujeito de enunciação. O que produz os enunciados que nos atravessam são massas, matilhas, povos, tribos, enfim, agenciamentos coletivos que nos são interiores e que nós não conhecemos porque fazem parte do nosso próprio inconsciente enquanto multiplicidade. Assim, a tarefa de uma verdadeira análise é descobrir esses agenciamentos de enunciação, esses encadeamentos coletivos, esses povos que estão em nós e que nos fazem falar. Opomos então todo um campo de experimentação pessoal ou de grupo às atividades de uma máquina automática de interpretação ou de aplicação técnica.

terça-feira, janeiro 29, 2008

a matilha desfeita pelo platonismo



Eu, uma loba,
amo você:
um lobo que prefere a lua

quinta-feira, dezembro 06, 2007

algumas tristes e inevitáveis palavras de ordem...


Do que mais sentimos falta? Do que tivemos ou do que não tivemos? Por que sentimos dor? Pelo que sabemos ou ainda não sabemos? Os olhos verdes da Helô sabiam que eu não dizia a verdade e que precisava de um tarô... qual é a verdade? Verdade é o que está perto demais... não podemos estar perto demais, so closer, perto demais falamos verdades insuportáveis! A uma distância segura mentimos muito bem e continuamos amigos, casados, amantes! Quem quer estar seguro? Eu não sinto falta de você porque não suporto te ouvir falar! Por que no te callas? Por que vocês não desligam a televisão? Por que vocês não param de contaminar seus sonhos com essas imagens cafonas e impossíveis de televisão? Por que não nos amamos? Diz pra eles Piaf*, diz: - ame, ame, ame! Desliguem as tvs! Parem de transar como se os protagonistas dos filmes pornôs fossem os seres mais felizes do universo! Esqueçam a felicidade se ela lhes for ofertada como Éden a merecer, buscar e comprar e só então gozar... Parem de dizer que pensamento não ocupa espaço! Nada ocupa mais espaço do que o pensamento! Mas ele não quer ocupar, colonizar, lotear, construir e decorar... ele só quer ser pensado... mas tente pensar o que te ocupa, coloniza o teu desejo, loteia, constrói e decora... então, veja bem, caro leitor, futuro ex tele-espectador (aquele que espera à distância), não é bem um mero eletrodoméstico que eu sugiro que você desligue através das sutis palavras de ordem que por ora utilizo... Em tempos de amor saberei não gritar!


*Referência ao filme Piaf Um Hino ao Amor, sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf

quarta-feira, setembro 19, 2007

Lipofilia & Lipofobia

Uma gorda triste senta no balcão da padaria... o que lhe resta é comer: um pastel, uma farta fatia de torta, uma Coca-Cola "normal". Ela precisa preencher o vazio da falta do amor. –Será que não tenho amor por que sou gorda? – pensa a gorda empanturrando-se do mais acessível dos prazeres: ali ao alcance de uns poucos reais pães dourados, tortas fartamente recheadas, doces e frituras... ela lembra do Jô Soares naquele velho vinil do Pluct Plact Zum “doce, doce / viver no planeta doce / veja que vida gostosa você pode aqui levar / você pode vir voando num planeta até sonhar / oh não, não tenha medo / não há perigo aqui / o pior que pode haver é você ter um piriri / oh yeah”. E tinha aquela outra do planeta das formigas... “mashmellow, chocolate, caramelo, chantilly”... Todas canções politicamente incorretas. Em tempos de "vida saudável", dão medo! E o sacrifício dos demais prazeres da vida? Quanto custa o desejo do outro? Ela tenta lembrar se alguma vez algum homem olhou bem dentro dos seus olhos como naquelas comédias românticas americanas em que o príncipe do baile desiste da gostosona burra e insensível para se dar conta que aquela feiosinha gente boa é que é a mulher da sua vida. – Será que vi muita TV e nada disso existe? – pensa a gorda já imaginando o que vai comer no jantar dali a umas duas horas. – Pizza ou X?! Mas a feiosinha sempre fica linda no final... O pedaço de torta é farto e ela já sente aquela sensação de estar cheia, completa, dolorida quando entra uma magra triste a procura da Coca Light "anormal", única ingestão que fará depois de duas horas na academia: spinning, esteira e musculação. Ela precisa preencher o vazio da falta do amor. Ela olha para a torta da gorda, sente um embrulho no estômago, tem nojo, não sabe se é da torta ou da gorda. – Credo! Não posso engordar! – pensa a magra. Ainda não tem o amor e vai pra casa correndo para perder mais algumas calorias. Enquanto corre, sente-se cheia, completa, dolorida... sacrifícios em busca do desejo do outro. E ela lembra daquela comédia romântica americana... – Nunca vi aquele olhar – E com mais uma anfetamina para colorir sua vida saudável aborta até a salada do jantar.

Puta que os pariu!

Quem afinal é a puta que os pariu?

Ser filho da puta neste país é lá algum defeito de reputação?

Deputados inimputáveis são, por acaso, filhos do cão?

E quem não quer ser filho da puta?

A puta é aquela que arruma pra você o melhor pai do país,

que, se não for um senador, pode ser um deputado!

Aí, suas contas serão pagas por um lobista muito bem cotado

Ele é só um filhinho de lobo, mas você é filho da puta! ...E do deputado!

Santa reputação é mamar nas tetas do estado!

A puta mãe há de povoar o país de filhos da puta inimputáveis!

E nós, os órfãos da democracia, contamos vergonhas incomputáveis

Em filas intermináveis

Computadores silenciáveis

E impostos impagáveis...

quarta-feira, agosto 22, 2007

PAULO


E nada importava...

não importava que tivesse sido há anos atrás,

não importava que tivesse sido por pouco tempo,

não importava que ele já estivesse no segundo casamento,

não importava terem sido apenas um olhar e duas frases:

tinha sido um reencontro com o mais lisérgico dos olhares...

E, dos últimos tempos, as duas melhores frases!


Fiquei ali por uma noite, respirando o mesmo ar,

apaixonada simplesmente por sua presença de oxigênio.

Aquele momento quase prescindia do toque:

respirar me apaixonava, seu ar me bastava!


O corpo ressurgiu e pediu um abraço:

- Paulo!

Era uma graça o que seu ar me alcançava:

Um homem capaz de suspender o tempo, o ar, a graça...

Um súbito encontro e eu, em outra dimensão, andava.

terça-feira, agosto 07, 2007

AMOR COM AMOR SE PAGA?


Eu não entendo que tudo tenha se capitalizado, mas aceito que trabalhemos pra ganhar dinheiro, que compremos papel pra escrever, comamos comida congelada pra jantar e ignoremos o pedido desesperado de um colono que nos pede dinheiro pra passagem de volta pra casa já que os vagabundos da capital roubaram tudo que ele tinha, pois parece que não temos muita escolha, só alguma resistência. Mas capitalização afetiva eu não aceito, não aceito, não aceito! Ta ligado?! Ô machistinha pós-moderno! Eu não me economizo, não! Ta entendendo? E não suporto quem se dá só um pouquinho porque não tem segurança no investimento, ou porque acha que o investimento pode ser de alto risco! Que é isso? Amor não gasta. Amor não se acumula. Amor não rende. E amor não se recusa! Na era das vaquinhas de caixinha eu sou vaca profana: jogo meu leite bom na tua alma e com chuva do mesmo bom tento inundar a alma de outros caretas!!! Evoé, Baby! Evoé!

Quadro: Gustav Klimt. Danae

sexta-feira, julho 27, 2007

Lucia Já Vou Indo


Lucia Já Vou Indo* era uma lesma gorda e vaidosa. Ela adorava festas, mas era uma lesma, chegava sempre atrasada. Às vezes, se atrasava algumas horas, encontrava todos bêbados dormindo pelos cantos, ou mordendo os lábios o suficiente para não conseguirem conversar com ela. Às vezes se atrasava uns dias e, em vez de chegar pro aniversário da amiga no sábado, acabava chegando pro almoço de família no domingo seguinte:
- Não Lúcia! Meu aniversário foi semana passada, mas entra estamos fazendo um churrasquinho, você almoça conosco!
Acabava conversando com a avó surda...
Às vezes se atrasava uns anos, e ao chegar à festa já não estavam lá seus amigos, eles tinham se casado, cuidado de seus bebês, ou simplesmente se cansado.
- Quem são essas pessoas? Que língua elas falam? Com quem posso conversar? - pensou Lúcia a beira da confusão mental, ou, para ser moderna, de um ataque de pânico. Viu alguém se aproximar, mas quando ia dizer um singelo 'oi' foi interrompida por uma língua abrupta em sua boca:
- Hey! Calma aí! Tu não vai perguntar meu nome?
- Pra que falar se a gente pode beijar?
Lúcia desejou profundamente que na próxima vez não se atrasasse anos, mas gerações, planetas, galáxias, a anos luz dali!
- Tchau! Já Vou Indo...

*Livro infantil de Maria Heloisa Penteado, um dos meus favoritos quando criança
* Quadro: Fernado Botero. Cama

domingo, julho 22, 2007

Mas...


E foi só uma noite, mas...

Ele é um menino, mas...
Eu perguntei se ele tava me procurando por aí
Ele respondeu: - desesperadamente!
E agora eu estou desesperadamente procurando por ele, mas...
Ele não atendeu.
Por que meus sentidos me enganam?
O tempo de espera faz com que passe as mãos em meus lábios como se pudesse tornar as lembranças mais próximas do corpo: o beijo na boca, as mãos nos cabelos, o olhar à luz da vela, o gosto do vinho, as palavras no ouvido...
Mais sentido, menos memória!
A memória enfraquece os sentidos, mas...
parece ser a única a mantê-los vivos.
Estarão vivos só em meu corpo?
Que marcas meu corpo é capaz de deixar no dele?
Encontro potente, mas....