quarta-feira, outubro 28, 2009

Abertura de inferno astral

Sagitário, 28 de outubro de 2009
Hoje é um bom dia para refletir sobre as vivências do passado e tudo aquilo que se passa no seu interior, já que Mercúrio entra em seu setor das crises. É hora de avaliar novos caminhos para a vida, mas evite ser crítico demais. Cuidado para não magoar ninguém!

terça-feira, outubro 27, 2009

a marca de caim

Compartilhar é difícil, como qualquer ato que envolve relação.
Podemos não saber como falar
Podemos nos sentir marcados por diferenças que nos colocam de fora do que está sendo dito.
Mas tudo isso são cadeados a destravar, exercício, provação.
Em outras vezes, porém,
por mais que nos convoquem, não há o que destravar
o exercício é mais duro porque é impossível:
Estamos diante do incompartilhável porque a experiência que somos convocados a compartilhar
não existiu, ainda está por acontecer ou
(e aí deve se localizar o indizível aterrorizante)
não acontecerá.

quinta-feira, outubro 22, 2009

dezoito de outubro

Terá o corpo possibilidades locais?
Poderei morar no teu cangote
Quando teu pé não gosta de mim?
E quando é que teu pé não gosta de mim?
Quando é que um leve movimento do meu olho esquerdo te leva a concluir
que não gostei (inteiramente) do que disseste?
Eu gosto de tudo que dizes
O que não quer dizer que concordo,
que con_sinto.
Nunca pensei
[palma da mão aberta atravessando o ar]
em concordâncias.
Necessidades de consenso,
penso ridículas.
Das palavras,
gostar,
é como um cafuné.
Aquele deitar entre afetividades
e passar pela importância.
Exatamente?
Exatamente.
Um muito de palavras em outras dimensões,
porque aquilo que não está para o__________________
Eu queria não ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Eu não queria VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV !
Terminar rastros com exclamações!
Não posso escrever sobre a perda dos rastros...
rastros se perdem,
uma vez perdidos: perdidos.
Não há reencontro, retomada,
aquele trumpete que levará ao encontro do que ainda não passou.
Passou, passará, está passando,
não cansa de passar...
É tempo de deixar um ponto e cair
fora.
Porque amar é saber ca
ir
fora.
[entre colchetes estontear as expressões do acordar para fazer,
fazeríade de movimento]
Fechar parênteses
e gostar faz bem.
Eu te gosto de fazer bem aos arrepios.


quarta-feira, outubro 14, 2009

prole


há uma dor em mim: não sei se é daquilo que ainda está nascendo ou daquilo que se encaminha com dificuldade e resistência para a abolição. não importa. se ainda estiver nascendo está demorando demais: hei de parir o natimorto da vida, aquilo que de tanto esperar, quando nasce já não tem tempo de viver. cérebro de ampulheta. dor de parir a vida que não nasce. parideira de natimorto de novo. de novo. de novo... não sei se tento o feto vivo prometido ou me entrego à infertilidade como a inevitável fissura que se crava em minha carne. sim, toda vida é um processo de demolição e a fissura começa num tempo imperceptível. quando me apercebi do rombo, o canion já estava aberto, rasgado, sem aprendizagem passível de fazer a costura. ampulheta na cabeça: o rombo é maior que o tempo...

sexta-feira, setembro 25, 2009

estupro

o canto do olho direito roça um objeto: um baratouro medindo um palmo aparece bordejando a janela, acenando suas antenas para mim, mero réptil inofensivo... tenho formigamentos anais, colméias vaginais, zunidos clitorianos e um útero prestes a parir os cupins que devorarão as pedras do ancoradouro onde estão amarradas as redes de proteção. respiro pelas axilas, alguma guelra nasce ali, de uma coceira. amamentações cáusticas me alimentam. tenho pernas equinas que cavalgam os pedais alados do futuro, uma sede cloacal na garganta e tentáculos cerebrais que pescam o pensamento: ele vaza do xorume de um cardume que morreu na praia... um inconsciente seminal e combustível me estupra, e este corpo não o pede nem o recusa.

quinta-feira, setembro 10, 2009

bendita vontade de espelho


A alegria dos espelhos parecia querer guardar os instantes que as retinas roubavam nos vieses do olhar...

Por alguns momentos também eu quis reter as imagens como se fossem afetos,

como se fossem memórias,

como se fossem inesquecíveis só pelo fato de as batizarmos assim...

A fugacidade diz de sua própria potência...

A memória da pele!

(imagem sonora que passa agora: “tudo em você é fugaz, tudo você é quem lança! – Lança mais! – Mais!”).

Quem dera um mundo em que os espelhos não fossem suspensões,

em que memórias não fossem suspensões,

em que afetos não tivessem que ser suspensos por uma imagem.

Estou criando as saudades que eu quero ter!

Terei saudade!

Saudade!

*Imagem: Sabina, de A Insustentável Leveza do Ser

sábado, agosto 15, 2009

esparramando-se sobre a mesa esquizofrênica*

Como saber quem é o leitor?
É preciso ser generoso e compreensível com ele, quase (ou totalmente) um escritor cristão...
Há uma linha contínua na escrita: a sacra forma-livro.
Mas queremos o livro lido pelo meio, pelas entranhas, por através, por trás, por partes, rasgado, rasurado, traído, sabotado, pervertido...
Onde mora a estética de um texto? No livro ou no meio?
Bom mesmo é ponto de interrogação: ponto bonito, sinuoso, questionador, impertinente.
E melhor ainda é quem pergunta. Mesmo que o gosto da resposta nos inunde das pílulas douradas de nosso parco saber: ideal de um ego inexistente.
Usaremos seus conceitos, mas não lhes daremos os louros. Roubo, usurpação e arte!
Ironia e não polêmica!
O fanzine contra a ciência!

*texto-produto da defesa de proposta do Jamer (DIF-PPGEDU)

quarta-feira, julho 22, 2009

mágica engarrafada

Incrível como uma substância líquida tem poderes de transporte, desde que ela carregue, engarrafados, os poderes da mágica... um vinho chileno tem o gosto da terra do Chile e você sabe disso quando toma um, mesmo que nunca tenha estado no Chile. São signos que o vinho transporta, signos da terra onde a uva nasceu.

E neste momento, os signos são muito graves, porque o vinho que tomo agora nasceu na mesma terra que eu. Um Merlot Da Paz é capaz de me levar às faltas que o tempo fez, ao que, como eu e o vinho, nasceu naquela terra, mas já não me transmite signos. Ou eu é que já não os escuto mais. Eu quase nunca gostei dos conterrâneos, sempre preferi o gosto das terras chilenas, mas o Da Paz me arrebata, me ganha, quase me arrasta de volta ao convívio das gentes que já não estão lá. Quase... Deveria eu me irmanar aos chilenos ou ir ainda mais longe, aos sul-africanos, negros vinhos, mas há um gosto de terra natal em meus pés...

segunda-feira, maio 04, 2009

entre homens e mitos

fauno.gif (414×489)

Eu disse:

“como eles podem não sentir que eu não sinto nada ?!”

E disse depois,

entre o pedido, a promessa e a praga:

“Preciso de um homem que me emocione”.

E depois de uns 10 anos depois da noite mais intensa,

eis que ressurge

o mais intenso dos abraços...

Ele disse que eu não lembrava.

Eu disse

“é claro que eu lembro”

...e de novo:

um abraço capaz de reentorpecer meu corpo...

Fauno me tomando em seu labirinto

e eu dizendo todos os sins que seu corpo convocava ao meu.

Mas depois,

quando eu saía para o mar

ele disse

“ficarei em terra firme”

e me largou sozinha

no mar das intensidades amedrontadoras e incompreensíveis...

Eu disse que eu lhe tinha medo Ulisses...

Sereias têm medo porque jamais serão Penélopes.

Eu não sei bordar colchas de espera,Ulisses,

eu só sei cantar...

eu só sei de agora

Para Felice Bauer*


A cópia dele, 

copia ela

Pra sustentar sua costela.

Leitora era ela.

Empregada 

ela prega

o prego no prelo da vida

de quem não fala.

À vida de falo

Para outro falo

Não fala.

Ele escreve a verdade

A cópia da mentira 

faz ela

E não fala

Cala

a costela 

na cara dela.


*Leitora e copista ideal de Kafka

terça-feira, fevereiro 10, 2009

o desejo é sempre de aventura

Um dia Jasão resolve dizer pra Joana* por que a deixou: "tu me exigias inteiro e intenso pra tudo, caralho! A outra não, ela fica lá do meu lado quieta e a vida passa sem fazer força".
Quem quer estar ao lado de alguém que não quer forçar a vida? Quando os casamentos ganharam esse significado medonho de descanso, de parada, de cessação da juventude?
Casamento há de ser a mais cruel das aventuras: o outro como aventura. Mas é insuportável querer o outro como aventura enquanto ele nos quer para descansar: "não, não quero ler o que tu escreveste; não, não quero saber por onde já andaste; não, não quero saber o que pensas; não, não quero ouvir as tuas propostas, não, não, não".
Então fica aí no teu apartamento com teus nãos que eu vou passear na floresta e dizer todos os sins que me forem possíveis.
(Marguerite Duras* já havia me avisado: "homens não suportam mulheres que escrevem", mas eu insisto, eu forço, eu publico para que a floresta invada teu apartamento, force tua vida com aventura e tormento, mesmo que permaneça teu medo de admitir que vens aventurar-te em meus escritos para não aventurar-te em meu corpo, afinal, hás de precisar descansar...)
*Jasão e Joana são os protagonistas da peça Gota D'Água de Chico Buarque e Paulo Pontes
*Marguerite Duras. Escrever. RJ: Rocco, 1994.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Entre cinderelas e monstros


Como não desejar o que já foi desejado antes, um desejo afirmado, convencido, domesticado para uma só satisfação? Como fazer do sofrimento a potência da revolta e não o xilique da mulherzinha? Como libertar um fluxo que não encontra companheiros potencializantes? Só liberando... Um que não vinga, outro que goza, um que brinca, outro que broxa, um que escreve, outro que chora, outro e outro ainda... O que não posso é deixar que os fluxos que por mim passam se domestiquem, assim, facilmente, docilmente, como se as minhas únicas possibilidades fossem ser dócil ou brava... Nem dócil nem brava! Não quero ter nome! Não me nomeiem! Vocês, que pouco se ocupam do que por vocês passa... Apenas deixam passar sem nada modificar, sem nada criar com o que a vida lhes dá, de graça. Preferem sua existência doméstica comprada a prestação de desejo, com seus cães tratados como bebês, como se pudessem ensiná-los a falar! Vocês me dão nojo! Não posso habitar um mundo de um povo que pensa ser proprietário do que pensa... Não, queridinhos, pensamento não se tem, pensamento é o que passa por nós para violentar a existência e não para docilizá-la! Não sou eu que sou brava! É a existência que se enraivece:
Daiana tirava um tatu do nariz durante o jantar de família...
- Minha filha, uma princesa não bota o dedo no nariz!
- Mas eu não quero ser princesa, mãe! Quero ser monstro!

Para Lesmari Bitencourt


Meu olho esquerdo tem um ponto de vista, o outro tem outro. O dedo anelar da minha mão direita tem um ponto de vista, mas briga com o ponto de vista da sua falange do meio. Aquele poro mais aberto que tenho na ponta do nariz julga ter um ponto de vista privilegiado; o ponto de vista do dedo mindinho do pé tem inveja. O sol não gosta muito de seu ponto de vista, preferia ter ficado na borda, acha legal o ponto de vista de Plutão, mas acabou no centro. Uma estrela riu dele esses dias: quem disse que você está centro? Hahaha! Você está parecendo aquele exemplar daquela espécie que vive lá num planetinha que vive em volta de você. Esta espécie desenvolveu um ponto de vista que a faz pensar que só ela tem ponto de vista. O exemplar, que eles chamam de Bush, também achou que seu ponto vista era o centro... Ai, ai, ai... O que faz de um ponto vista melhor ou pior? Não há melhores e piores! Cada ponto de vista é só um ponto de vista! Só há perspectivas. E este é o melhor dos escambos: trocar pontos de vista! E eu ando querendo um ponto de vista de lesma...
Alguém tem pra trocar?
*Imagem: Mundo Ovo de Eli Heil

quarta-feira, setembro 10, 2008

ALTEREGO

Seu nome de batismo é Martina Gómez. Nascida em Buenos Aires, mudou-se com o pai para o Rio de Janeiro aos três anos. Nunca soube por que, o pai nunca lhe disse. Aliás, o pai nunca dizia nada, mas ela gostava de pensar que era filha de um fugitivo político e que sua mãe era uma desaparecida da ditadura argentina cuja madre llorava en La Plaza de Mayo.
Acabou criada em plena Tijuca. Sabe tudo de samba, tanto quanto de tango e rock'n'roll, mas nunca se encantou pela batucada. Tinha sempre aquela arrogância portenha estampada na cara. O pai era tão calado que não lhe dera pudores, mas livros!
Aos 14 anos, depois de um convite para ser garçonete do botequim da esquina, foi pro calçadão de Copacabana de tubinho preto, scarpin e cigarrilha. Parecia saber o que lhe aguardava.
Sentou-se num bar à espera da primeira proposta enquanto um figurão afeminado de blazer marine a encarava do outro lado. Incomodada e sempre direta, resolveu se aproximar:
– Boa noite! – ela disse.
– Queira sentar-se senhorita – Posso oferecer-lhe uma bebida?
– Vodka... dupla, com gelo... sem limão!
Conversaram horas até ele convidá-la para ir a seu apartamento. Ela perguntou quanto ele pagaria, pois ela sabia que custava caro e sua cotação subira ao longo da noite. Ele respondeu:
– Darei exatamente o que quer.
– Sendo assim, podemos ir, senhor.
Valentim, o figurão afeminado do blazer marine, farejou em Martina um talento nato. Hoje, aos 30 anos, ela é a gerente de algumas de suas casas noturnas e sua única herdeira.
Versão morena e refinada da Kátia Flávia, é conhecida no submundo carioca como Glória. Talvez por afirmar uma origem longínqua ou mesmo só para contrariar a paisagem, jamais a encontraremos usando um esvoaçante vestidinho florido, quiçá um biquini a tostar nas areias do Leblon. Aos 40 graus, Glória estará de botas e calça de couro preta e sua pele continuará branca atrás de grandes e permanentes óculos escuros e da película de seu Citroen VTR, onde ouve John Coltrane e Sex Pistols.
Se a encontrarmos na Zona Sul, atenderá por Valèrie. É assim que a chamam seu namorado playboy de 22 anos, morador da Barra, e seus amigos, que se interessam muito por alguns produtos que ela consegue com facilidade. Ele pensa que ela é representante comercial em Porto Alegre, por isso só aparece de quinze em quinze dias... pra saltar de asa delta!
Nos outros, ela costuma freqüentar camas de motel acompanhada de Jardson, traficante do segundo escalão do Morro do Alemão que sonha em subir pro primeiro. Glória acha uma péssima idéia:
– Lugarzinho de difícil acesso, meu nego, vai acabar sem conseguir sair de lá e eu, sem conseguir chegar...
Avessa ao clima bossa nova da Zona Sul, preferiu comprar um apartamento no Catete, daqueles antigos e enormes. Mas, além de Valentim, ninguém sabe onde ela mora. Glória não se ocupa de sentimentos, a vida parece escorrer por entre seus dedos como se nada pudesse lhe fazer falta. Foi isso que Valentim reparou naquele bar de Copacabana, quando ela tinha inacreditáveis 14 anos: jamais falou sobre filhos ou sonhos, não gosta de comer, nunca se apaixonou, quer dizer... apaixonou-se esses dias... por um Lambourghini Spyder vermelho! Mas, resistiu. Sabem como é o Rio de Janeiro: convém não chamar atenção nem de bandido, nem de polícia...
Quer voltar a Praga, sua cidade favorita... tem a impressão que, da próxima viagem, poderá não voltar.

segunda-feira, agosto 11, 2008

ÁGUA NA BOCA

A tua boca me dá uma atormentante água na boca.
A pergunta é sobre a imaginação ...
Quanto mais meu corpo deseja tua boca, mais a imagina,
o que faz com que o teu beijo fique cada vez mais longe da minha boca,
e meu pensamento fique cada vez mais perto daquilo que é cada vez menos tu.
- Entendeu?!
Só que...
A água na minha boca não é imaginação!

Nossas bocas jamais se encontraram pra falar.
E eu digo: “não, eu não posso” ...

Imaginar a tua boca tem sido minha distração inútil mais divertida,
- mas não dá!
- Isso é desperdício de água na boca!

... Quando vou parar de ver novela?
Essa televisão não tem botão!

quinta-feira, agosto 07, 2008

"eu não falo a sua língua, eu não sou o seu vizinho, eu moro muito longe, sozinho."

Eu não canto em inglês,
que eu não sou japonês.
Nem perco a poesia
que pode me dar o português.

Aos prisioneiros do rock, eu digo:
- Sou livre em mandarim!
E os prisioneiros da MPB
que não ouçam a mim!
Quem canta não sou eu!
Muito menos este canto é meu!

Aos corpos que se ofertam às línguas que virão,
ouvidos que não sabem quem são...

terça-feira, maio 27, 2008

Sympathy for...

Essa noite quase não dormi. Pesadelos... Um tesão que se confundia com medo: um homem me estrangulava, embaixo d’água, na hora do gozo. Pensamentos atormentados por prazeres de ontem que querem habitar o agora, mas não são nem promessa para amanhã. Quinta, talvez? Hahaha!!! Quem há de saber?

“Não amamos ninguém separadamente das paisagens, das horas, das circunstâncias, de toda natureza por ele englobadas”, disse, mais uma vez, Deleuze. E as paisagens que me fazem amar não são jardins floridos em tardes ensolaradas, quiçá jantares à luz de velas, nem se quer são habitadas por uma só face. Elas têm que ter seu quê de angústia, de fumaça, de múltiplas máscaras e muito rock ’n’ roll...

Já não quererei mais a “sorte de um amor tranqüilo”? Não! Quero a sorte, mas não sei de quê! Não sonho ideais. Tenho pesadelos... A vida é trágica!

Amor fati, enfim: eu amo o que habito com mais fervor!

segunda-feira, maio 26, 2008

Vida Fascista


Começo com o filme de Sérgio Bianchi (2005) e a provocação que nos faz já no título: “Quanto vale ou é por quilo?” Pergunto, então: o que está sendo avaliado ou pesado aí? Responde-se um tanto arriscadamente: pesa-se e avalia-se a vida.

O filme apresenta nossa roda viva[1] contemporânea onde os personagens circulam entre diversos papéis: o herói se torna ladrão; o ladrão, mártir; o mártir, corrupto; o corrupto, vítima; a vítima, inabalável; o inabalável, cúmplice; o cúmplice, algoz... A vida enclausurada, a vida sitiada, a vida que parece não conseguir mais escapar, que não consegue parar de se reproduzir, a vida subjugada a um regime fascista sem um déspota para responsabilizar,

“o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.” (Foucault, 1977)

A título de ilustração, peço licença para contar um causo:

“Andávamos eu e meu amigo carioca em sua primeira estada em Porto Alegre. Levei-o ao mirante do Morro Santa Teresa para que visse o Beira Rio de cima, além de outras paisagens. Lá encontramos Daniel, um menino maltrapilho de uns 5 anos, tão parte de nossa paisagem urbana que já não o ouvíamos...

– Tio, me dá uma moeda?

Meu amigo e sua típica comunicabilidade carioca disse ao menino:

– Quaé, rapá?! Não dá nem ‘oi’ nem ‘boa tarde’ e já chega pedindo moeda?

– Tem moeda, tio? Me dá uma moeda, tia?

Explico ao menino que meu amigo é turista e tal e lhe daria uma moeda se ele me dissesse qual era o nome da cidade na outra margem do rio para onde eu apontava.

– “Cidadi” – o menino respondia várias vezes às minhas insistências e inúteis facilitações e dicas.

– Acho que esse menino não entende o conceito de cidade – pensei. Resolvi mudar o pedido:

– Então me diz o que tu mais gosta de fazer.

– Não sei dizer, não sei falar.

– Tu não sabe falar?

– Não, minha mãe bate na minha boca, só sei pedir moeda.”

Senhores, que povo[2] fala na boca desse menino? Quantas moedas vale um povo que (não) se faz falar?

Estamos falando de uma vida e de uma história que (quase) não conseguem mais escapar. É a vida do homem em constante invenção de si e do mundo (vida como obra de arte) que quer escapar de uma “história que nos separa de nós mesmos, e que deveríamos transpor e atravessar para pensarmos a nós mesmos” (Deleuze, 1992. p.119).

Parece que o filme e a marca que ele deixou queriam perguntar: de que ferramentas precisamos para ouvir e ver agenciamentos coletivos de enunciação e não apenas a queixa-conduta dos indivíduos, a oferta de pão-e-leite ou o ‘me-dá-uma-moeda’? Que lugar ocupamos nesta roda viva que não pára de se reproduzir?

O filme mostra a máquina de Estado (principalmente em suas engrenagens burocráticas e corruptas) se infiltrando nas instituições que deveriam regulá-la: as ONGs (organizações não-governamentais) e suas fachadas assistencialistas de uma população à beira da miséria. Mas acaba dando visibilidade a todo um funcionamento social que acaba tragicamente se utilizando dessas mesmas engrenagens para sobreviver. Eis a roda viva.

E então pergunto: como pensar o que escapa e quer escapar da roda viva e criar novos territórios existenciais para um povo que não se divide entre pobres ou ricos, pretos ou brancos, honestos ou corruptos? Estas binariedades é que dão lugares aos que podem falar e calam os que não podem, nos fazendo esquecer que sempre que falamos, falamos em nome de um povo, de um coletivo. Sérgio Bianchi nos possibilita ver que na roda viva somos todos pobres e ricos e pretos e brancos e honestos e corruptos... a roda viva está aí a capturar todos.

Então, tanto em arte como em política, “trata-se de liberar a vida lá onde ela é prisioneira ou de tentar fazê-lo num combate incerto” (Deleuze/Guattari, 2005. p.222). E a vida só quer devir e produzir mais vida enquanto devir, mas eis que chega roda vida e carrega o desejo pra si. Na roda viva, a vida só quer moeda.



[1] Alusão à popular canção Roda Viva de Chico Buarque que fazia uma referência à aparelhagem do estado militarizado e suas estratégias para calar a vida que queria falar.

[2] Para Deleuze (2006, p.346-347) os enunciados não remetem ao EU como sujeito de enunciação. O que produz os enunciados que nos atravessam são massas, matilhas, povos, tribos, enfim, agenciamentos coletivos que nos são interiores e que nós não conhecemos porque fazem parte do nosso próprio inconsciente enquanto multiplicidade. Assim, a tarefa de uma verdadeira análise é descobrir esses agenciamentos de enunciação, esses encadeamentos coletivos, esses povos que estão em nós e que nos fazem falar. Opomos então todo um campo de experimentação pessoal ou de grupo às atividades de uma máquina automática de interpretação ou de aplicação técnica.

terça-feira, janeiro 29, 2008

a matilha desfeita pelo platonismo



Eu, uma loba,
amo você:
um lobo que prefere a lua

quinta-feira, dezembro 06, 2007

algumas tristes e inevitáveis palavras de ordem...


Do que mais sentimos falta? Do que tivemos ou do que não tivemos? Por que sentimos dor? Pelo que sabemos ou ainda não sabemos? Os olhos verdes da Helô sabiam que eu não dizia a verdade e que precisava de um tarô... qual é a verdade? Verdade é o que está perto demais... não podemos estar perto demais, so closer, perto demais falamos verdades insuportáveis! A uma distância segura mentimos muito bem e continuamos amigos, casados, amantes! Quem quer estar seguro? Eu não sinto falta de você porque não suporto te ouvir falar! Por que no te callas? Por que vocês não desligam a televisão? Por que vocês não param de contaminar seus sonhos com essas imagens cafonas e impossíveis de televisão? Por que não nos amamos? Diz pra eles Piaf*, diz: - ame, ame, ame! Desliguem as tvs! Parem de transar como se os protagonistas dos filmes pornôs fossem os seres mais felizes do universo! Esqueçam a felicidade se ela lhes for ofertada como Éden a merecer, buscar e comprar e só então gozar... Parem de dizer que pensamento não ocupa espaço! Nada ocupa mais espaço do que o pensamento! Mas ele não quer ocupar, colonizar, lotear, construir e decorar... ele só quer ser pensado... mas tente pensar o que te ocupa, coloniza o teu desejo, loteia, constrói e decora... então, veja bem, caro leitor, futuro ex tele-espectador (aquele que espera à distância), não é bem um mero eletrodoméstico que eu sugiro que você desligue através das sutis palavras de ordem que por ora utilizo... Em tempos de amor saberei não gritar!


*Referência ao filme Piaf Um Hino ao Amor, sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf